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Artigo - Caminhos Obscuros

     Caminhos obscuros são aqueles que não conhecemos. São diferentes dos caminhos de escuridão ou de luz, pois podem ser ambos sem que saibamos.

     Caminhos obscuros são aqueles que surgem da nossa personalidade mais profunda forjada no passado a qual temos pouco conhecimento ou claras lembranças.

     Caminhos obscuros simplesmente não se mostram até que um sacolejo da vida nos faz perceber que estávamos caminhando como um trem desenfreado ladeira abaixo.

     Somos então tomados por desterro e terror ao nos depararmos com o fato de que o que conhecemos de nós é apenas uma ponta do iceberg. Parece então que a vida vivida se desfaz e os caminhos percorridos perdem o sentido e se diluem, como se dilui água quando a pegamos na palma de nossas mãos.

     E quando isto, acontece começamos uma outra necessária jornada: a de cavar mais fundo em busca do resto da montanha sob o iceberg que somos nós. Talvez nunca cheguemos à base (e isto, na verdade, é o mais provável) pois a montanha da nossa personalidade é algo complexo e, de certa maneira, infinito.

     Até os 10 anos, em via de regra, sentimos que o mundo nos protege. Em nosso mundo se resume a nossa família e parentes mais próximos . Na pré-adolescência sentimos que existe algo além deste mundo, mas o desejo de conhecê-lo ainda não é forte suficiente para nos fazer querer criar asas . Na adolescência, finalmente, descobrimos que o mundo-família, que era nossa proteção, passa a ser nossa prisão. E pensando neste novo mundo que se revela, renegamos muitas vezes aqueles que nos protegeram.

     Aos 20, já lançados ao mundo, começamos a efetivamente forjar a personalidade que se evidenciará para nós como a ponta do iceberg. Aos 30 sentimo-nos senhores do destino e nos colocamos na empreitada de nos dedicar ao mundo que achamos ter descoberto e deixar, assim, nossa marca pelo árduo no labor profissional.

     Aos 40 se formos privilegiados pela vida, receberemos uma bela cacetada, necessária para perceber que todo caminho percorrido até o momento cobriu apenas a pequena área do iceberg, ou seja, um pequeno espaço de uma vasta montanha que somos nós. E daí, nos damos conta de quanto tempo perdemos (ou ganhamos) percorrendo o pequeno mundinho perfeito que achávamos viver, na fase dos 30.

     Com esta percepção vêm as reflexões, os dilemas e, principalmente, a percepção de que não temos culpa pelas cegueiras de uma vida, que é um presente pelas descobertas. E que, a partir de agora, podemos fazer diferente, pois temos todo um novo caminho à frente para percorrer.

 

Publicação: Jornal O Diário - p.2 - 31/07/2014 - Campos dos Goytacazes - RJ - Brasil