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Artigo - O que é dos outros


Uma percepção interessante, ao se deparar com a cultura Finlandesa, é perceber como como este povo trata o que é do outro e, neste contexto, também o que é público.


Em uma cidadezinha do interior da Finlândia, chamada Hämeenlinna, um aspecto que “salta aos olhos” são os acontecimentos que evidenciam a cidadania e o senso do bem comum. Vamos a alguns exemplos.


O primeiro é o fato (pasmem!) das bicicletas não ficarem presas a cadeados nos locais públicos de estacionamento das mesmas. As pessoas vão a um supermercado, por exemplo, e simplesmente estacionam sua bicicleta sem receio de que alguém se aproprie indevidamente da mesma.


Outra preocupação refere-se a praticas que levam o indivíduo a obrigatoriamente pensar no outro e no meio ambiente. Nos supermercados e lojas o uso de sacolas plásticas não é gratuito, como maneira de evitar o desperdício e, consequentemente, os resíduos plásticos tão prejudiciais ao meio ambiente. Àqueles que pensam em como poderiam “sobreviver” sem as sacolas plásticas gratuitas, cujo destino na maioria das vezes é servir de saco de lixo, basta perguntar a nossos avós como faziam. Quem não se lembra dos “carrinhos de feira”? Na era das tecnologias, uma startup (empresa emergente na área de tecnologia) poderia até propor um novo carrinho de feira motorizado. Interessante, também, o fato de que nos supermercados, para se utilizar os carrinhos de compra, faz-se necessário inserir uma moeda de dois euros, para destravar a corrente do carrinho. E a moeda é devolvida quando o usuário tranca novamente o carrinho no seu local de origem. Ou seja, maneira inteligentíssima de se economizar mão de obra, provocar no usuário o comportamento de se devolver o que foi retirado, além de não deixar “rastro” (o que, nos supermercados brasileiros, representa carrinhos espalhados e “trenzinhos” de carrinho circulando pela loja).


Ainda no contexto de práticas cidadãs, podemos destacar que não é permitido circular em locais públicos consumindo bebidas alcoólicas. É uma institucionalização interessante haja vista evitar distúrbios, criando uma “áurea de paz” nos locais públicos, sem privar as pessoas da diversão.


No geral, o pensamento parece ser: ninguém se importa muito com o que você faz, desde que não incomode o outro e crie prejuízos públicos. E, seguindo este pensamento, é interessante perceber como até mesmo em festas públicas, ao ar livre, os fumódromos estão presentes. Muitas vezes até mesmo de maneira cômica para nós, pois são demarcados apenas por uma corda, que limita o espaço de circulação. Mas percebem que, com isto, evita-se que o transeunte fumante, distribua baforadas de nicotina e tabaco gratuitas, aos quatro cantos, como se todos fossem apreciadores de tais atos pessoais suicidas.


Enfim, para nós brasileiros isto tudo pode parecer muito chato e controlador. Mas é apenas a evolução dos bons costumes. E realmente geram benefícios. A titulo de ilustração, vale lembrar que no período colonial brasileiro, nossos antepassados desprovidos de locais adequados para se aliviarem das necessidades noturnas, se livravam dos dejetos por meio de baldes cujo conteúdo era lançado pelas janelas, acompanhados de um único aviso emitido pelos emissários mais educados: “Arreda, ioiô, que lá vai cocô”. Evoluir nas posturas cidadãs não parece um mal negócio, afinal!

 

Publicação: Jornal O Diário - p.2 - 21/08/2014 - Campos dos Goytacazes - RJ - Brasil