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Artigo - Kairós e Chronos


Kairós e Chronos

Kairós e Chronos são duas palavras gregas que nos remetem à ideia de tempo. Porém, diferentemente de nós, os antigos gregos faziam uma distinção linguística entre os tipos de tempo, a qual estão sujeitos os seres humanos.

O tempo Chronos é, portanto, o tempo linear, cronológico, aquele contabilizado pelas horas de um relógio. É o tempo quantitativo e que não volta depois que é vivenciado no instante.

O tempo Kairós significa “momento certo”, ou “momento oportuno”. É o o tempo não linear e qualitativo. É aquele que é não é medido pelo relógio, mas pela emoção.

Apesar de termos abandonado esta sábia distinção dos tipos de tempo, eles existem e são facilmente percebidos por nós. Basta, para isso, pensarmos nas situações em que sentimos como o tempo estivesse “parado”. Ou outras situações a qual o tempo “passou voando”. Ou ainda, outras situações a qual tudo a nossa volta pareceu-nos ocorrer em “marcha lenta”. Nenhuma destas percepções estão ligadas ao sentido mecânico do tempo medido pelo ponteiro marcador de segundos de um relógio.

Presos ao pragmatismo das medidas mecânicas, abrimos mão de aceitar o Kairós como algo real e o atribuímos ao fruto de nossa imaginação (no sentido mais depreciativo). Sobrevalorizamos o Chronos apoiados pela indistinção de conceitos reforçada pela nossa linguística ocidental, que misturou as “farinhas no mesmo saco”.

O resultado desta falta de percepção destes tipos de tempo é devastador para nós. É como um veneno que vai nos corroendo, nos matando, sem que tenhamos nítida percepção disto, haja vista estarmos tão imersos nesta míope percepção do nosso contexto.

Na mitologia grega, Kairós se digladiava com o tirano Chronos, que impunha um ritmo mecânico e autômato ao seus vassalos. E hoje, mais do que nunca, Chronos parece sobrepujar Kairós. Michael Ende, em seu livro magnífico “Momo e o Senhor do Tempo”, relata este confronto de uma maneira muito interessante.

As tecnologias parecem ser o subterfúgio de Chronos para “acelerar o Kairós” dando-nos a falsa impressão de que estamos no controle pela estrondosidade de novas conexões e possibilidades interacionais. Mas nunca estivemos tão a mercê de Chronos.

Kairós parece estar perdendo a batalha, árdua batalha contra a percepção de que nós devemos fazer nosso tempo, valorizar o Kairós ao Chronos. Mas simplesmente, estamos cruzando os braços e abaixando nosso semblante para não ver, ou não viver.

 

Publicado em: Jornal O Diário - 15/11/2015