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Caminhar é Preciso

 

O vazio. O nó na garganta. O peso do mundo sobre a alma. A incerteza do futuro. A incerteza do hoje. A dor surda que dói na alma. Que não se encontra no corpo físico. E que se torna mais angustiante por esta razão. Arrastam-se os dias, arrastam-se as horas, arrasta-se o corpo. Onde está o belo, o formoso, a leveza da vida? Nada faz sentido, nada tem propósito. Um profundo processo de angústia se instaura na alma. O indivíduo não está só. Está cercado de pessoas, amigos, profissionais. Mas sua alma está surda. Não lhe chega o clamor dos demais que lhes querem ajudar. Está fechado em seu mundo. Numa batalha solitária.


Como buscar-se? Como achar-se novamente? Como sair desta atoleiro d'alma que parece cada vez mais lhe afundar? Não se deseja mais sentir a dor. Dor surda. Dor que não dói no corpo. Dor da alma. É a desesperança, a ausência de propósito. A fé, doce esperança dos desvalidos, míngua. Como resistir? Como sobreviver? Como vencer?


Diversos são os caminhos. Nunca iguais, pois são pessoais para cada indivíduo. Por isto o desafio é maior. O caminho é único e, se transposto, sempre se torna uma vitória pessoal. A busca é por si mesmo. Primeiro a pessoa deve se achar. Para sabendo onde está, poder olhar à volta e perceber o quanto está atolada. Pois é um estado de alma tão profundamente perturbador, que perde-se o próprio egocentrismo. O indivíduo não se percebe mais. A única coisa que lhe parece existir é a dor, a angústia e o eco de uma voz que deseja não mais sentir.. a dor.. da alma.


Alguns acham uma saída temporária nos medicamentos, outros na meditação, outros na oração. Outros ainda, na conversa com os amigos. Outros se perdem por longo tempo. Mas o fato é que a única coisa que não se pode deixar de fazer, mesmo que neste estado preciso for, é o de continuar, mesmo que rastejando. Este desejo de prosseguir, mesmo que tênue, é a centelha da vida que há em nós. Uns chamam de instinto de sobrevivência, outros de centelha divina. O fato é que esta é a nossa força motriz primordial.


Este desejo de prosseguir é acolhido por uma lembrança de tempos melhores. Pela certeza, lá no fundo, de que há algo melhor a se buscar e viver. E neste rastejar, o indivíduo começa a perceber que em breve tropega, para enfim voltar a caminhar. Caminhar em direção a um algo melhor, que lhe renova as forças, que lhe mostra caminhos, que lhe dá sentido à existência novamente. Neste processo de retomada, começam a surgir novamente momentos de não tristeza, seguido por momentos de alegria e até mesmo satisfação. Estes raros momentos começam novamente a se evidenciar e, com mais frequência, se mostram pela satisfação de ir à lugares, estar com amigos ou simplesmente fazer coisas saudáveis que tragam bem estar. No começo, o propósito é o refrigério à dor. Depois, passam a ser fonte de prazer. Raro prazer que agora se renova e se mostra mais constante.


E então, um belo dia, a vida se renova! Talvez a natureza nos tenha dado as estações do ano como lembrança. Talvez como promessa. Tudo se renova, tudo! Nada é para sempre, nem a alegria, nem a dor. Então na alegria, cultive as boas lembranças e curta o presente que é o presente. E na dor, aproveite para se tornar mais forte, mais sábio e mais resistente, buscando nas lembranças dos bons momentos vividos, a prova de que a vida é maravilhosa. E nas promessas de dias melhores, a certeza de que podemos mais!.

 

Publicado em: Jornal O Diário - 23/03/2017

Por: Andre Uebe